Se estamos fazendo Floortime com a criança, precisamos fazer Floortime com os pais também
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Esta foi a mensagem transmitida pela palestrante Colette Ryan no Congresso Internacional DIRFLOORTIME 2026 e gostaria de escrever aqui as minhas reflexões acerca desta palestra maravilhosa e que faz muito sentido...
O desenvolvimento não acontece isoladamente. A criança está inserida em uma família, que está inserida em uma comunidade. Por isso, quando pensamos em apoiar o desenvolvimento infantil, precisamos ampliar nosso olhar para além da criança.
A criança não vive sozinha. Seu desenvolvimento é influenciado pelas relações familiares, pela escola, pelos profissionais, pela cultura e pelas oportunidades disponíveis em seu ambiente. Não basta apoiar apenas a criança. Precisamos apoiar a família e a comunidade que a cerca.
O DIRFloortime nos convida a compreender o desenvolvimento a partir da interação entre as Capacidades Funcionais Emocionais do Desenvolvimento, as Diferenças Individuais e os Relacionamentos. Mas existe uma reflexão importante: se queremos apoiar o desenvolvimento da criança, também precisamos apoiar o desenvolvimento dos pais em sua jornada de cuidado.
Segurança antes de tudo
Antes da regulação existe algo ainda mais fundamental: a sensação de segurança.
Antes de aprender, brincar, comunicar ou resolver problemas, o ser humano precisa sentir-se seguro.
Isso vale para as crianças. E também vale para os pais.
Muitas vezes esperamos que os pais participem ativamente das sessões, implementem estratégias em casa e se envolvam profundamente no processo. Mas raramente nos perguntamos:
Como esse pai está chegando hoje?
Quanto estresse ele está carregando?
Quanto recurso emocional ele possui disponível?
Ele está regulado o suficiente para aprender algo novo?
Assim como observamos a regulação da criança, precisamos observar a regulação dos pais.

Nem toda família tem energia disponível
Uma forma interessante de compreender isso é através da Teoria das Colheres.
Cada colher representa uma unidade de energia física, emocional ou cognitiva disponível ao longo do dia.
Antes mesmo das oito horas da manhã, muitos pais já precisaram:
acordar os filhos;
administrar medicamentos;
organizar alimentação;
lidar com higiene;
controlar uso de telas;
organizar materiais escolares;
administrar crises e frustrações;
preparar a rotina da casa.
Muitas vezes grande parte da energia disponível já foi consumida antes mesmo do dia começar.
E então acrescentamos mais uma tarefa:
"Brinque mais."
"Faça Floortime em casa."
"Implemente novas estratégias."
Mas será que ainda existem "colheres" disponíveis? A dificuldade de implementação nem sempre está relacionada à falta de interesse ou comprometimento. Muitas vezes está relacionada à falta de energia.
Por isso, antes de perguntar o que a família não está conseguindo fazer, talvez seja mais importante perguntar: "Como vocês estão?"
A importância da sintonia
Quando nos sintonizamos com alguém estamos comunicando:
"Eu vejo você."
"Eu escuto você."
"Você importa."
"Estou aqui para ajudá-lo."
Essa sintonia não deve acontecer apenas com a criança. Precisa acontecer com os pais.
Isso exige observar:
expressões faciais;
tom de voz;
postura corporal;
ritmo de fala;
sinais de sobrecarga;
sinais de ansiedade.
Muitas vezes os pais estão comunicando suas dificuldades sem utilizar palavras. Precisamos aprender a ler essas pistas. Se um pai permanece distante durante toda a sessão, olhando para o celular, talvez o mais importante não seja julgá-lo como desinteressado. Talvez a pergunta seja: "O que está dificultando sua participação neste momento?"
Assim como buscamos compreender o que está por trás do comportamento da criança, precisamos compreender o que está por trás do comportamento dos pais.
Compreender a experiência do outro
Uma das habilidades mais importantes dentro dos relacionamentos é a capacidade de perceber que outra pessoa pode vivenciar uma mesma situação de maneira completamente diferente da nossa.
Uma etiqueta na roupa pode ser irrelevante para uma pessoa e extremamente desconfortável para outra.
Um alimento pode ser agradável para alguém e insuportável para outra pessoa.
O desafio não é concordar. O desafio é compreender.
Quando ajudamos os pais a refletirem sobre como seus filhos experimentam o mundo, ampliamos sua capacidade de responder às necessidades reais da criança.
A pergunta deixa de ser:
"Por que ele reage assim?"
E passa a ser:
"O que ele pode estar sentindo?"
O objetivo da família também é o nosso objetivo
Quando uma família procura ajuda, ela geralmente tem objetivos muito claros:
deseja mais comunicação;
deseja mais autonomia;
deseja mais aprendizagem;
deseja mais participação social.
Esses objetivos não precisam ser combatidos. Eles podem ser acolhidos. O papel do profissional não é substituir os objetivos da família. É ajudá-la a compreender o caminho para alcançá-los.
Se o objetivo é ampliar a comunicação, precisamos construir as bases que sustentam a comunicação.
Se o objetivo é ampliar a aprendizagem, precisamos fortalecer as capacidades que sustentam a aprendizagem.
O objetivo permanece o mesmo.
O que muda é a compreensão do processo.
Do medo para a confiança
Muitas famílias vivem guiadas pelo medo.
Medo do futuro.
Medo do julgamento.
Medo de não fazer o suficiente.
Medo de perder oportunidades.
Medo de errar.
Quando o medo ocupa espaço demais, as interações tendem a se tornar mais rígidas, mais controladoras e menos prazerosas.
O caminho para reduzir esse medo não é oferecer falsas garantias.
É construir experiências de sucesso.
Pequenas experiências de sucesso geram confiança. Confiança gera esperança.
E esperança permite que a família volte a enxergar possibilidades.
Utilizar as forças para apoiar as vulnerabilidades
Muitas famílias passam anos ouvindo apenas sobre dificuldades.
Sobre atrasos.Sobre déficits.Sobre limitações.Essas informações são importantes.
Mas não são a história inteira.Também precisamos identificar:
interesses;
competências;
habilidades;
iniciativas;
potencialidades.
Não se trata de ignorar vulnerabilidades.Elas existem.Precisam ser compreendidas e apoiadas.
Mas as forças podem ser utilizadas como caminho para apoiar essas vulnerabilidades.
O desenvolvimento não acontece apenas corrigindo dificuldades.Ele acontece ampliando aquilo que já está funcionando.
Escutar antes de orientar
Nem sempre o que uma família precisa é de mais uma orientação.Muitas vezes ela precisa ser ouvida.
Precisa ter espaço para compartilhar sua história.Sua cultura.Suas crenças.Suas dúvidas.Suas preocupações.
Suas conquistas.
Escutar genuinamente permite compreender quem aquela família é e quais recursos possui para enfrentar seus desafios.
Antes de ensinar, é necessário compreender.
Antes de orientar, é necessário conectar.
Antes de pedir que os pais apoiem o desenvolvimento dos filhos, precisamos ajudá-los a sentir-se vistos, compreendidos e apoiados.
Porque o desenvolvimento acontece nas relações. E isso inclui também a relação que construímos com as famílias.
Karlen Pagel- Motivação Autismo
Reflexões com base em palestra de Colette Ryan no Congresso Internacional DIRFLOORTIME 2026























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