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Quando a técnica deixa de fazer sentido: reflexões sobre o modelo transdisciplinar no DIRFloortime

  • 22 de mar.
  • 3 min de leitura

Estamos realmente trabalhando com a criança… ou estamos trabalhando para cumprir metas da nossa própria disciplina?


Essa pergunta não é confortável. E talvez seja exatamente por isso que ela precisa ser feita.


Na prática clínica, especialmente em contextos interdisciplinares, ainda é muito comum observarmos intervenções organizadas em “caixas”: linguagem de um lado, motricidade de outro, comportamento em outro. Cada profissional cumpre sua parte, mas nem sempre existe uma integração real. O resultado? Uma criança fragmentada em objetivos e não compreendida em seu desenvolvimento.


O modelo transdisciplinar, dentro do DIRFloortime, propõe uma mudança mais profunda do que parece à primeira vista. Não se trata apenas de colaboração entre profissionais. Trata-se de reorganizar o raciocínio clínico a partir do desenvolvimento.

E isso muda tudo.



💙O problema não são as metas, é o ponto de partida

Não há nada de errado em ter objetivos terapêuticos. O problema começa quando esses objetivos são definidos antes de entendermos se a criança tem base para sustentá-los.

Sob pressão por resultados , seja institucional, familiar ou até interna é comum priorizarmos aquisição de habilidades: caligrafia, fala, coordenação. Tudo isso é importante. Mas a pergunta central deveria ser outra: Essa criança está pronta, do ponto de vista do desenvolvimento, para sustentar essa demanda?

Quando ignoramos isso, entramos em um ciclo conhecido: mais esforço, menos engajamento, mais frustração para a criança e para o profissional


💙Desenvolvimento não acontece em partes

O desenvolvimento é integrado.

Regulação sustenta engajamento.

Engajamento sustenta comunicação.

Comunicação sustenta aprendizagem.


Ainda assim, na prática, seguimos separando essas dimensões como se fossem independentes. O modelo DIR organiza esse raciocínio através das Capacidades Funcionais e Emocionais do Desenvolvimento (FEDCs), oferecendo um mapa comum para diferentes profissionais. E aqui está um ganho real: quando a equipe compartilha o mesmo modelo, a intervenção deixa de ser paralela e passa a ser convergente.


💙O que realmente muda na prática clínica

Essa mudança não é teórica. Ela exige ajustes concretos no dia a dia:

  • Parar de iniciar a sessão com uma lista rígida de objetivos.

  • Passar a observar o estado regulatório da criança antes de qualquer demanda

  • Utilizar a interação como meio de intervenção e não apenas como contexto

  • Entender que uma única atividade pode sustentar múltiplos objetivos ao mesmo tempo


Um exemplo simples: uma brincadeira pode trabalhar regulação, comunicação e planejamento motor simultaneamente se o olhar clínico estiver organizado pelo desenvolvimento, e não pela disciplina.


💙O ponto mais negligenciado: intencionalidade

Um conceito central do DIRFLOORTIME é a intencionalidade compartilhada.

Não basta a criança executar uma ação. É preciso que haja intenção, troca, significado.

Quando a criança quer algo, quando está emocionalmente engajada, o aprendizado deixa de ser imposto e passa a emergir. Isso muda completamente a qualidade do desenvolvimento.

🚨🚨E aqui está um erro comum: medir progresso pela execução de tarefas.

No modelo DIR, o progresso é medido pela qualidade do engajamento.


💙O modelo transdisciplinar exige:

  • Alto nível de formação da equipe

  • Comunicação constante entre profissionais

  • Tempo clínico mais flexível

  • Contextos institucionais que sustentem essa lógica


Sem isso, o risco é cair em um discurso bonito, mas com prática desorganizada ou até perda de clareza de papéis.

Ou seja: não é um modelo simples de implementar.


💙Por que isso importa de verdade

Quando o trabalho é organizado pelo desenvolvimento e não por metas isoladas algo muda:

  • A família se sente menos sobrecarregada

  • Os profissionais trabalham com mais coerência

  • A criança encontra mais previsibilidade e sentido nas interações


E, principalmente: o desenvolvimento passa a fazer sentido.


🤔🤔Não como uma lista de habilidades adquiridas, mas como um processo integrado, relacional e funcional.


Talvez a principal mudança não esteja nas estratégias, mas na pergunta que guia nossa prática:

✔️Estou tentando ensinar algo para essa criança…

ou estou criando as condições para que ela se desenvolva?


Essa diferença é sutil. Mas, clinicamente, muda tudo.


Karlen Pagel- Motivação Autismo

 
 
 
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