O que está submerso sustenta tudo
- há 4 dias
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Uma leitura do desenvolvimento a partir da metáfora do iceberg
A imagem do iceberg representa de forma clara uma realidade que muitas vezes é ignorada na prática clínica e educacional: aquilo que enxergamos não é o ponto de partida do desenvolvimento.
Na parte visível do iceberg estão as demandas que mais preocupam famílias e profissionais:AVDs, comportamento e desempenho acadêmico.
É ali que surgem as queixas.É ali que se concentram as cobranças.É ali que costumam se direcionar as intervenções.
Mas o que sustenta essa parte visível está submerso.

A base invisível do desenvolvimento
A porção submersa da imagem revela as habilidades que organizam o corpo e, consequentemente, preparam o cérebro para aprender.
Esquema corporal
A construção da representação interna do próprio corpo é o primeiro mapa que a criança desenvolve. Saber onde o corpo começa e termina, reconhecer segmentos corporais e compreender sua posição no espaço são bases para escrever, se vestir, organizar materiais e interagir socialmente. Sem esquema corporal consolidado, tarefas simples exigem esforço desproporcional.
Segurança postural
A estabilidade do tronco e o controle proximal sustentam todos os movimentos distais. Uma criança que luta para manter-se sentada ou equilibrada não está “desatenta”; ela está gastando energia para simplesmente permanecer organizada contra a gravidade. Sem segurança postural, o cérebro prioriza estabilidade, não aprendizagem.
Consciência dos dois lados do corpo
A integração bilateral permite coordenação, cruzamento da linha média, escrita fluida e leitura organizada. Dificuldades nessa área podem se manifestar como troca de letras, desorganização espacial no papel ou movimentos pouco coordenados.
Planejamento motor
Antes de executar, o cérebro precisa planejar. O planejamento envolve imaginar, organizar e sequenciar ações. Quando há falhas nesse processo, a criança pode parecer desorganizada ou resistente, mas, na verdade, enfrenta dificuldade em estruturar internamente o que precisa fazer.
Maturação de reflexos
Reflexos primitivos são fundamentais nos primeiros meses de vida, mas precisam ser integrados para que o movimento voluntário emerja. Quando permanecem ativos, interferem na postura, no controle ocular, na coordenação e na autorregulação.
A camada percepto-motora
Mais profundamente, encontramos habilidades que sustentam a organização visual e motora:
Coordenação olho-mão: essencial para escrita, recorte, uso de utensílios e organização espacial.
Percepção visoespacial: base para matemática, leitura e orientação no ambiente.
Ajuste postural: pequenas correções automáticas que mantêm o corpo estável durante o movimento.
Sistema motor ocular: rastreamento visual eficiente é fundamental para leitura e atenção sustentada.
Quando essas funções estão desorganizadas, o que aparece no topo pode ser interpretado como “falta de foco”, “desinteresse” ou “baixo rendimento”, quando na realidade há um esforço corporal invisível acontecendo.
Consequência, não ponto de partida
A metáfora do iceberg nos lembra que:
O comportamento é resposta.
O desempenho acadêmico é resultado.
A autonomia nas AVDs é expressão de organização prévia.
Intervir apenas no topo é como tentar moldar o gelo acima da água sem fortalecer a base submersa.
Desenvolvimento não é apenas aquisição de conteúdo.É organização progressiva do sistema nervoso, integração sensorial, maturação motora e construção da autorregulação.
Quando a base se fortalece, o topo se reorganiza.
Um convite à mudança de perspectiva
Essa imagem não propõe simplificação.Ela propõe precisão.
Em vez de perguntar apenas “por que não aprende?”, talvez seja mais potente perguntar:
O corpo está organizado para sustentar essa demanda?
Há estabilidade suficiente para manter a atenção?
O sistema nervoso está regulado para integrar informações?
O que está submerso sustenta tudo.
Fortalecer a base não é atrasar o desenvolvimento. É criar as condições para que ele aconteça de forma mais funcional, sustentável e respeitosa.























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