Estereotipias no autismo: por que tratá-las como “comportamento inadequado” é uma leitura ultrapassada
- 8 de fev.
- 3 min de leitura
Durante décadas, as estereotipias no autismo foram descritas quase exclusivamente como comportamentos-problema, algo a ser reduzido, bloqueado ou extinto.Essa leitura não apenas empobrece a compreensão clínica, como também contraria evidências acumuladas nas neurociências, na psicologia do desenvolvimento e nos estudos sobre autorregulação.
Hoje, sustentar que estereotipia = inadequação é cientificamente fraco.
O que a literatura mostra de forma consistente e o que ainda é ignorado na prática

1. Estereotipias têm função regulatória : não são ruído motor
Movimentos repetitivos (balançar o corpo, bater mãos, vocalizações repetidas, movimentos rítmicos) estão associados a mecanismos de autorregulação neurofisiológica.
Evidências mostram que estereotipias podem:
modular o nível de excitação autonômica
reduzir sobrecarga sensorial
organizar estados de alerta
sustentar engajamento atencional
Do ponto de vista neurobiológico, esses movimentos não são aleatórios. Eles atuam sobre circuitos envolvendo:
sistema nervoso autônomo
integração sensório-motora
modulação dopaminérgica
previsibilidade motora como âncora regulatória
📌 Inibir indiscriminadamente estereotipias não elimina a necessidade regulatória.O que a literatura demonstra é o oposto: a supressão tende a aumentar marcadores de estresse fisiológico, como ativação simpática sustentada.
Ou seja:
o corpo continua tentando se regular; apenas com menos recursos disponíveis.
2. Estereotipias não indicam apenas sobrecarga negativa
Elas aumentam, com frequência, em estados de excitação positiva
Uma falha recorrente na interpretação clínica é associar estereotipia exclusivamente a estresse, ansiedade ou desorganização.
Estudos observacionais e relatos de primeira pessoa mostram aumento de estereotipias em contextos de:
alegria
antecipação
interesse intenso
engajamento profundo
sensação de segurança relacional
💚 Estereotipias em estados de prazer não é sinal de colapso regulatório.É, muitas vezes, um marcador de excitação organizada.
Tratar esses movimentos como “problema” revela uma confusão conceitual grave: emoção intensa ≠ desregulação
Esse erro nasce de um viés normativo: quando a expressão corporal foge do padrão esperado, ela passa a ser lida como disfuncional ; mesmo quando o sistema está regulado.
3. Supressão comportamental não ensina regulação
Ensina contenção e tem custo
Intervenções focadas apenas em “parar o movimento” podem produzir efeitos colaterais relevantes, amplamente descritos na literatura:
✔️ aumento do custo cognitivo
✔️ maior esforço para manter aparência de controle
✔️ internalização de tensão
✔️ substituição por descargas menos adaptativas (ex.: autoagressão, colapso tardio, exaustão)
🚨 Um ponto crítico: regulação não é ausência de movimento.
Quando a intervenção elimina o comportamento sem ampliar repertório regulatório, o sistema continua exigindo descarga — só que agora sem caminhos seguros.
Isso explica por que muitas pessoas autistas apresentam:
crises tardias
fadiga extrema após longos períodos de supressão
colapsos fora do ambiente “controlado”
4. O critério ético não é estética. É funcionalidade.
A pergunta clínica não é:
“Isso parece estranho?”
As perguntas corretas são:
A estereotipia causa dor física?
Impede a participação significativa?
Coloca a pessoa em risco?
Se a resposta for não, a tentativa de inibição geralmente responde mais ao desconforto do observador do que à necessidade da pessoa autista.
📌 Normalização motora como objetivo terapêutico não tem sustentação ética nem científica quando não há prejuízo funcional.
O que faz sentido clinicamente e o que não faz
❌ Não faz sentido
Bloquear estereotipias em estados de euforia
Tratar movimentos como “vício”, “mania” ou “hábito a ser quebrado”
Usar normalização comportamental como métrica de sucesso
Essas abordagens ignoram o funcionamento do sistema nervoso e reduzem o cuidado a controle externo.
✅ Faz sentido
Ler a estereotipia como sinal do estado interno
Diferenciar estereotipia regulatória de estereotipia associada a sofrimento
Ampliar o repertório de estratégias regulatórias, sem retirar as já funcionais
Ensinar modulação, não repressão
Ajustar ambiente, demandas e ritmo antes de tentar “corrigir” o corpo
Em síntese
Estereotipias não são um erro a ser apagado.São linguagem do sistema nervoso.
A clínica baseada em evidências não pergunta “como parar”, mas sim:
“o que esse movimento está sustentando e o que mais pode ser oferecido junto?”
Karlen Pagel























Comentários